TAMARA CUBAS X FÁBIO VENTURINI = A MULTIDÃO

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TAMARA CUBAS X FÁBIO VENTURINI = A MULTIDÃO

Em torno de Multitud, de Tamara Cubas

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Esse é o relato sincero de uma das muitas singularidades encontradas na multidão proposta pela coreógrafa Tamara Cubas, na edição brasileira de sua obra intitulada Multitud.

Multitud :sf Multidão.

Foram duas semanas de trabalho árduo, seis horas por dia experienciando com muita humildade e entrega, deixando-se afetar por tudo e por todos.

Difícil traduzir tantos acontecimentos em palavras. Difícil dizer o que aconteceu nessas duas semanas com essa multidão, já que só posso dizer por mim. Poderia escrever uma tese sobre tudo o que aprendi, poderia dificultar e teorizar o que não precisa ser dificultado.

Na verdade, tudo é simples, muito simples.

Tamara nos disse pouco sobre o conceito Multitude. Ela não gastou muito tempo nos detalhes teóricos da obra, não falamos do porquê e muitos menos para quê. Isso não importava, o corpo importava. Falou rapidamente sobre Spinoza, falou sobre o que seria uma Multitude. Disse que a obra não falava sobre a ditadura.

Não exigiu nada, não perguntou nada. Disse que não importava quem somos ou o que fazemos. Dizia que somos “hermosos” – assim como somos. Ela nos deixou à vontade para respeitar o nosso corpo: ” você conhece seu corpo, sabe o que pode e o que não pode”.

Disse que ali ninguém era obrigado a nada e que era a multidão quem tomava as decisões. Quando questionada sobre a nudez em nosso único ensaio dentro da universidade, às vésperas da estréia, Tamara respondeu que a decisão era da multitude, ela não podia responder por setenta pessoas.

A multidão de Tamara tem uma coisa do Carteiro e o poeta, onde o poema é de quem precisa dele e não daquele que o escreve. Tamara se veste tanto de carteiro quanto de poeta. Ela escreveu a poesia nos corpos e deu pra que cada um fizesse o que desejasse. Como carteiro, carrega a simplicidade e a humanidade que cabe aos gênios.

Tem a energia de uma grande e sábia mãe que cuida para que os filhos aprendam da melhor maneira. Generosa.

Sua obra se estrutura na poesia dos acontecimentos, na apreciação do momento.”Se não quer fazer, não faça”, dizia ela a todo momento. “Não dramatize, não faça”. Ela nos dava o poder de decidir.

Ela deixa o legado de sua obra por onde passa, deixando livre para a multidão a decisão de continuar sem ela. Disse que a obra não pertence a ela.

Multitude é uma convenção de gente. É o retrato do mundo confuso e diversificado em que vivemos . É o peso, o cansaço, é ação e reação. É a prova de que a dança é feita pra todas as pessoas, pra todos os corpos, de todas as idades. Multitude grita do começo ao fim que menos é mais. Sem dramatizar ou exagerar cada corpo se coloca como é, sem personagens. Multitude é acessibilidade. É aberto para que qualquer um que se sinta movido possa entrar. É poesia coletiva, linguagem universal.

Tamara levou o seu olhar sobre corpos e multidão pra vários países. Saiu do Uruguai, passou pelo México, Cuba, Chile, Brasil (até onde sei) e agora Itália. Juntou em um mesmo grupo todo tipo de gente de várias formas. Com certeza, mexeu com cada pessoa que participou anonimamente dessas multidões e deixou saudade por onde passou.

Tamara contaminou cada pessoa que ali estava com suas inquietações e sentimentos. Cada um de nós ficou movido a continuar nessa eterna descoberta, dessa família chamada Multitud.

“Porque o artista tem de ir aonde o povo está”.

Fábio Luís Venturini é artista circense, ator e performer.

http://bienaldedanca.sescsp.org.br/pt/tamara-cubas-x-fabio-venturini-a-m…

Tipo: Artículo
Autor: Fábio Venturini
Medio: 7×7
Fecha: Setiembre 2015
Año: 2015

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